sexta-feira, 20 de abril de 2012

Muovere Desvio

Textos

Desvio que sinaliza caminhos na dança gaúcha

por Carlinhos Santos • 19/04/2012
As cinco pedrinhas para vencer o demônio. Cidinha Campos enfurecida contra a corrupção. As confissões sobre ser ou não ser dos que, sexualmente, são. As dúvidas quânticas de Gilberto Gil. A hercúlea e renegada tarefa de salvar a humanidade com quadro negro e giz. Mãe Duchampa pra abrir as portas das galerias, trazer o curador e a inspiração. A emergência da dança como área de trabalho e os vocabulários que ela oferece ao novo contexto cultural. Enquanto o áudio retumba todas essas provocações, o vídeo expõe imagens do processo de criação de Desvio, o novo trabalho da Muovere Cia de Dança, que estreou nesta semana, no estacionamento do Centro Municipal de Cultura de Porto Alegre.
As tais imagens do vídeo, espécie de prólogo do trabalho, contextualizam o processo de pesquisa que resultou no espetáculo. Ele começou em outubro de 2011, com improvisações dos bailarinos em espaços de retenção de semáforos da Capital gaúcha. Nesse vaivém urbano, os intérpretes aparecem correndo, puxando-se, arrastando-se. Depois, parte dessas situações, mais de 200, foi registrada em vídeo. Dessas, 45 foram lançados à votação do público através do site do projeto, entre janeiro e fevereiro, incluindo os tais áudios de interesse público.
Aproximando as movimentações experimentadas na rua, mais o interesse votado pelos internautas, deu-se a quântica dessa experiência coreográfica dinâmica e inventiva, que tem vários acertos. O primeiro deles é essa capacidade de se deixar permear pelo ambiente da cidade. “Calvinete”, como se define Jussara Miranda, diretora da companhia, ela busca na obra de Ítalo Calvino uma das potências para suas provocações e ações artísticas. Agora, como em Bild, espetáculo de 2001, o invisível das cidades é referência para tatear, corporalmente, possibilidades de mobilidade que se traduzam em poéticas da e para a dança. Corpo e ambiente em trocas constantes, diriam Katz e Greiner.
De fato, essa possibilidade da urbe virar espaço de criação é uma das riquezas desse Desvio. A rota de ação da Muovere é de inclusão dos ruídos do entorno, das dificuldades do trânsito caótico, das barreiras que as massas humanas viram para o livre flanar nessa paisagem. Esse é o material das corridas (des)ordenadas dos bailarinos em cena, dos encontros ríspidos-rápidos que executam, das contorções, encaixes e desencaixes vigorosos da obra. E, sobre tudo, da delicada visceralidade como são apresentados. Corpo e cidade, ordenamentos e desbobramentos, são o contexto potente que é levado agora à cena.
O trabalho é orquestrado pela pesquisa de procedimentos coreográficos de Jussara, que busca na poética da cidade um dos vetores de suas criações, mais o interesse de Diego Mac na aproximação da dança com as artes visuais, e da diretora Jezebel De Carli, que atua com enfoque no teatro físico. Voltando a outro trabalho da Muovere, Re-Sinto (2008), encontra-se lá a: “sou o espaço onde estou”. É também por esse mote que podemos entender (e aplaudir!) Desvio. A junção de dança, artes visuais e teatro contextualiza um ambiente criativo e de prazeroso resultado.
Ambientada no estacionamento do Centro de Cultura, a montagem toma partido de tudo o que o espaço oferece. As linhas desenhadas no chão para orientar os veículos são, agora, vetores de ação dos intérpretes. A luz reforça esses mapas de movimentação em alguns momentos, esses riscos luminosos parecem quase flutuar. Mas há ali corpos em movimento, num chão que acolhe esta experiência coreográfica reconfortante. E esses corpos são divertidos, tensos, fluidos.
É particularmente significativo, também, que mesmo trabalhando com muitos recursos corporais da dança de rua, a trilha sonora pontuada por Vivaldi e a valsa do Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky, cria outras camadas de leituras. Há um pas de deux quebrado, torto, ora suingado, irreverente, mas, ao mesmo tempo, de uma reverência plena ao que, em termos de história, a dança produziu em sua trajetória de opções e estéticas no Ocidente. A ponta que se vê ali citada aponta, sim, para as incorporações possíveis, hoje, dos novos vocabulários para se trabalhar na área.
Nesse sentido, Desvio também acerta o caminho da construção compartilhada, incluindo na sua cena a cena do entorno, numa acolhida ao(s) outro(s) do mundo. Na apresentação da estreia, foi particularmente tocante a cena paralela de uma menina que, ao ver os bailarinos em ação e ouvir os acordes da música, saiu dançando à sua maneira. Depois, reuniu um grupo e aproximou-se, determinada a acomodar seu olhar aos “ruídos” que, antes, poderiam estar atrapalhando a sua brincadeira de rua. Frame de uma dança que aproxima, conquista, educa os sentidos. Flash de uma dança que desacomoda para aquietar.

Montado com recursos do Fumproarte, o fundo municipal destinado à produção artística de Porto Alegre, o novo trabalho da Muovere fortalece a importância da ação de coletivos de criação. Amplia, também, o significado da trajetória da Muovere, que existe há 23 anos. É uma ação que enverga múltiplas pertinências: a principal delas é o de manter-se inquieta, trabalhando com associações afetivas, apostando na capacidade de aglutinar intérpretes criadores – os que estão agora em cena são Denis Gosch, Letícia Paranhos, Wiliam de Freitas e Rossendo Rodrigues –, que fazem de seus corpos uma escrita coreográfica, um manifesto de inserção no contexto da cidade e da produção de pensamentos artísticos com a dança.
Nesse sentido, Merleau-Ponty acolhe a ideia de que o corpo, como um objeto artístico, é um ponto de vista sobre o mundo. Ele reconhece que estamos em um mundo que, ao mesmo tempo em que parece nos anteceder e ter existência independente, é inseparável de nós. É neste espaço, nesta abertura entre o eu e o mundo, entre o interno e o externo, que se inauguram condições de produção de pensamentos que, no caso de Desvio, dançam duos, trios e tais num troca-troca entre dança, cidade, vídeo, vida, arte.
Por estas nuances todas, o novo trabalho da Muovere Cia de Dança é particularmente importante no contexto da produção gaúcha de dança contemporânea e no contexto da cena brasileira. Ele situa possibilidades de diálogos, educação do gosto, construção de parcerias e de resistência artística. Essa é uma rede ainda em construção no Rio Grande do Sul: talvez um pouco pela incapacidade dos grupos/coletivos dialogarem (ainda que haja uma militância pelo Plano Estadual de Cultura e da Dança e no Colegiado de Dança Estadual), e outro tanto pela ainda frágil ação pública no setor. Mesmo assim, nas vertentes de ação da arte contemporânea, a Muovere move-se com habilidade e particular competência.
Então, Desvio tem sinal verde, pois encontrou caminho e vocabulários possíveis para esse trânsito.
O espetáculo volta a ser apresentados dias 28 de abril, às 20h, e 29 de abril, às 19h30min e 20h30min, sendo estas sessões incluídas na programação do dança.com, da Secretaria Municipal de cultura de Porto Alegre/ Centro de Dança.
Carlinhos Santos é historiador, jornalista, crítico de dança, especialista em Corpo e Cultura: Ensino e Criação pela Universidade de Caxias do Sul e mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação (UCS). Também é titular da coluna 3por4, do Jornal Pioneiro, em Caxias do Sul, RS.
#Siga o idança no twitter.
  shareshare


Nenhum comentário:

Postar um comentário