Degustação de trabalhos

Espaço destinado para a divulgação de produções artísticas, culturais, históricas...

Breve radiografia íntima de Guerra e Paz

Na nossa contagem regressiva para o lançamento da primeira edição brasileira de Guerra e paz traduzida diretamente do russo, selecionamos trechos de seu diário oceânico e de algumas cartas das centenas que mandava mensalmente, para amigos escritores, familiares, editores, historiadores e tipógrafos.
São trechos em que ele revela sua obsessão com cada aspecto do desenvolvimento do romance e também, curiosamente, uma preocupação com a censura.
Até o lançamento do livro, na segunda metade de novembro, publicaremos mais trechos como esses e outras curiosidades sobre a gênese de Guerra e paz e a vida de Tolstói nos seis anos de trabalho incansável sobre os manuscritos.



“O que eu escrevo, eu reviso. Está tudo claro, mas a quantidade de trabalho à frente me assusta. É bom definir o trabalho que falta. Diante dos grandes obstáculos que ainda virão, você não precisa se deter demais e revisar os detalhes ad infinitum.”  (diário, 2 de março de 1865)

“Escrevo de noite, não muito, mas tudo bem, me sinto capaz. Todo o tempo surgem ideias sobre o que farei e insatisfação com o que já fiz. É preciso escrever todos os dias sem falta, não tanto para manter o ritmo do trabalho, mas para não perder o fio da meada e saber o que cortar.”(carta para o escritor P. D. Boborykin, julho ou agosto de 1865)

“O objetivo do artista não é resolver uma questão irrefutavelmente, mas forçar as pessoas a gostar da vida em todas suas inumeráveis, inesgotáveis manifestações. Se me dissessem que eu poderia escrever um romance que estabelecesse quais as atitudes aparentemente corretas diante das questões sociais, eu não perderia nem duas horas de trabalho nele; mas se me dissessem que o que eu escrevesse seria lido daqui a vinte anos pelas crianças de hoje e que elas iriam chorar e sorrir com a leitura e se apaixonar pela vida, eu devotaria toda a minha vida e as minhas forças a isso”. (carta para o médico A. E. Bers, novembro de 1865)

“Esse trabalho final de polimento é muito difícil e requer muito esforço. Mas eu sei, por experiência, que é um trabalho que tem seu próprio pico. E quando lutamos para atingir esse pico, não conseguimos parar e assim vamos até o fim, sem descanso. E agora que eu cheguei nesse pico, eu sei que vou acabar logo a terceira parte, fique ela boa ou ruim.” (carta para o poeta e tradutor Afanasi Afanásievich Fet, novembro de 1866)

“Não consigo parar de escrever, cada vez mais rapidamente. Mas estou convencido que essa escrita veloz, mesmo cheia de garranchos, é benéfica. Não temo as contas do tipógrafo – o qual, eu espero, não encontre motivo para discussões sem importância. As partes de que você mais gostou seriam bem piores se eu não tivesse rabiscado cinco rascunhos de cada uma.” (carta para P. I. Bartenev, dezembro de 1867)

Trechos selecionados e traduzidos do inglês.